Arquivo do mês: julho 2011

Quanto és questionável, ó Igreja; no entanto, quanto te amo!

Quanto me fizeste sofrer e, no entanto, quanto te devo!

Gostaria de te ver destruída e, no entanto, preciso da tua presença.

Deste-me tantos escândalos; contudo fizeste-me entender a santidade!

Nada vi no mundo mais obscurantista, mais dado aos compromissos, mais falso; e nada toquei que fosse mais puro, mais generoso, mais belo.

Quantas vezes tive vontade de bater no teu rosto a porta da minha alma; e quantas vezes pedi poder morrer em teus braços seguros.

Não, não posso livrar-me de ti, porque sou tu, mesmo não sendo completamente tu.

Além disso, para onde iria? Construir outra?

Mas não poderei construí-la senão com os mesmos defeitos, porque são os meus defeitos que levo dentro de mim. E se a construir, será a minha igreja, não mais a Igreja de Cristo.

Sou bastante velho para entender que não sou melhor que os outros.

Anteontem um amigo escreveu uma carta para um jornal: “Deixo a Igreja porque ela, com seu comprometimento com os ricos, não tem mais credibilidade”.

Tenho pena! Ou é um sentimental que não tem experiência, então o perdôo; ou é um orgulhoso que pensa que é melhor que os outros.

Ninguém de nós é confiável enquanto está na terra.

São Francisco gritava: “Tu crês que sou santo, e não sabes que posso ainda ter filhos com uma prostituta, se Cristo não me segurar!”.

A credibilidade não é dos homens, é só de Deus e do Cristo.

Dos homens é a fraqueza e, quando muito, a vontade de fazer algo de bom com a ajuda da graça que escorre das veias invisíveis da Igreja visível.

Será que a Igreja de ontem era melhor que a de hoje? Será que a Igreja de Jerusalém era mais digna de fé que a de Roma?

Quando Paulo chegou à Jerusalém levando no coração sua sede de universalidade sob o vento de sua potente inspiração carismática, será que o discurso de Tiago sobre o prepúcio a ser cortado ou a fraqueza de Pedro, que se demorava com os ricos de então (os filhos de Abraão) e que causava escândalo ao almoçar só com os puros, puderam trazer-lhe dúvidas sobre a veracidade da Igreja que Cristo tinha acabado de fundar, e lhe dar vontade de fundar outra em Antioquia ou em Tarso?

Será que Santa Catarina de Sena, vendo o Papa fazer – e como fazia – uma política suja contra sua cidade, a cidade de seu coração, podia vir-lhe à cabeça a idéia de subir nas colinas de Sena, transparentes como o céu, e fazer outra igreja, mais transparente que a de Roma, tão grossa, tão cheia de pecados e tão politiqueira?

Não, não creio, porque tanto Paulo como Catarina, sabiam distinguir, entre as pessoas que compunham a Igreja, “o pessoal da Igreja” – como diria Maritain – e esta sociedade humana chamada Igreja que, diferente de todas as outras associações humanas, “recebeu de Deus uma personalidade sobrenatural, santa, imaculada, pura, indefectível, amada como esposa por Cristo e digna de ser amada por mim como mãe dulcíssima”.

Aqui está o mistério da Igreja de Cristo, verdadeiro mistério impenetrável.

Tem o poder de dar-me santidade e é feita toda ela, do primeiro ao último, só de pecadores, e que pecadores!

Tem a fé onipotente e invencível de renovar o mistério eucarístico e é composta de homens fracos, que andam às apalpadelas no escuro e lutam todos os dias contra a tentação de perder a fé. É portadora de uma mensagem de pura transparência e é encarnada em uma massa suja, como sujo é o mundo.

Fala da doçura do Mestre, da sua não-violência, e na história mandou exércitos destripar infiéis e torturar heresiarcas.

Transmite uma mensagem de pobreza evangélica, e não pára de procurar dinheiro e fazer alianças com os poderosos.

Aqueles que sonham algo diferente desta realidade só perdem tempo e começam tudo de novo. Além disso, mostram que não entenderam o homem.

            Porque isso é o homem, exatamente como o faz visível a Igreja, em sua maldade e ao mesmo tempo em sua coragem invencível que a fé no Cristo lhe deu e a caridade de Cristo lhe faz viver.

            Quando eu era jovem não entendia porque Jesus, apesar da negação de Pedro, o quis como chefe, seu sucessor, primeiro papa. Agora já não me admiro mais e compreendo sempre melhor que haver fundado a Igreja sobre a tumba de um traidor, de um homem que fica assustado ao ouvir a conversa fútil de uma serva, era uma advertência contínua para manter cada um de nós na humildade e na consciência da própria fragilidade.

            Não, não saio desta Igreja, fundada sobre uma pedra tão frágil, porque fundaria outra sobre uma pedra ainda mais frágil que sou eu.

            Além disso, para que servem as pedras? O que conta é a promessa de Cristo, o que conta é o cimento que une as pedras, que é o Espírito Santo. Só o Espírito Santo é capaz de fazer a Igreja com pedras mal talhadas como somos nós.

            Só o Espírito Santo pode manter-nos unidos apesar de nós, apesar da força centrífuga do nosso orgulho sem limites.

            Aqui está realmente o maior mistério da Igreja, ao qual renuncio fechando meu coração ao irmão inimigo e fazendo-me juiz da assembléia dos filhos de Deus.

            Aqui está o mistério.

            Esta mistura de bem e de mal, de grandeza e de miséria, de santidade e de pecado que é a Igreja, afinal sou eu.

            Mesmo se nenhum daqueles que vivem, que estão na Igreja, possa dizer “Igreja” porque a pessoa da Igreja o supera, cada um de nós pode sentir com tremor e infinita alegria que o que se passa na relação Deus-Igreja é algo que nos pertence intimamente.

            Em cada um de nós repercutem as ameaças e a doçura com que Deus trata o seu povo de Israel, a Igreja. A cada um de nós Deus diz como à Igreja: “Eu te farei minha esposa para sempre” (Os 2,21); mas ao mesmo tempo recorda-nos a nossa realidade: “a tua impureza é como a ferrugem. Procurei tirá-la, canseira inútil! É tão grossa que não sai nem com fogo” (cf. Ez 24,12). Basta ler os profetas para sentir como tudo isto que Deus dirige a seu povo, Israel, o diz a cada um de nós.

            E se as ameaças são tão numerosas e a violência do castigo tão grande, mais numerosas as palavras de amor e maior é a sua misericórdia. Diria mesmo, pensando na Igreja e em minha pobre alma, que Deus é maior que nossa fraqueza.

            Mas ainda há outra coisa que talvez seja mais bela. O Espírito Santo, que é o Amor, é capaz de ver-nos santos, imaculados, belos, ainda que vestidos de patifes e adúlteros.

            O perdão de Deus, quando nos toca, faz tornar transparente Zaqueu, o publicano, e imaculada Madalena, a pecadora.

            É como se o mal não tivesse podido tocar a profundidade metafísica do homem. É como se o Amor tivesse impedido de apodrecer a alma distante do amor.

            “Eu joguei os teus pecados para trás de minhas costas”, diz Deus a cada um de nós no perdão. E continua: “Amei-te com amor eterno; por isso reservei para ti a minha bondade. Construir-te-ei de novo e tu serás reconstruída, virgem, Israel” (Is 31,3-4).

            Pois é, chama-nos de “virgens” mesmo quando voltamos da enésima prostituição no corpo, no espírito e no coração.

            Nisto, Deus é verdadeiramente Deus, isto é, o único capaz de fazer as “coisas novas”.

            Porque não me importa que Ele faça novos céus e novas terras, é necessário que faça “novos” nossos corações.

            Esse é o trabalho de Cristo. Esse é o ambiente divino da Igreja.

            Vocês querem impedir este “fazer novos os corações”, expulsando alguém da assembléia do povo de Deus? Ou vocês querem, procurando outro lugar mais seguro, pôr-se em perigo de perder o Espírito?

by Irmão Carlo Carreto

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