Arquivo do mês: abril 2010

A misericórdia é porta do céu!

Um dos grandes desafios do ser humano é poder encontrar a felicidade nas coisas simples da vida. Complicamos aquilo que é simples. Transformamos o fácil em complexo. As vezes chego a pensar que faço isso de propósito.

Um velho amigo costumava me dizer que “A vaca come capim porque gosta.” Demorei cerca de dias para, literalmente, ruminar o sentido dessa frase na minha vida. Percebi que essa frase fala de liberdade, de escolha. Quantas vezes o meu comportamento é como o da vaca? Quantas vezes vivo ali moendo e remoendo aquele velho capim da minha vida. Quanto tempo tenho gastado pensado no que é infértil e improdutivo. Mastigo ponho pra fora e como novamente. Escolho viver assim. Chega a ser repugnante mas é o que muitos de nós fazemos com as situações nas nossas vidas. Escolhemos viver remoendo nossas falhas, fraquezas e defeitos. Parece que nos dá prazer a auto-piedade, a auto compaixão e sentir pena de nós próprios. Chamo isso de carência. Portanto é ai que mora o grande perigo. Como controlamos e onde curamos nossas carências e ausências?

Não digo isso, porque tenho a solução ou a resposta mas porque essa também é a minha luta! Dia e noite, procuro por esse amor que preenche e completa. Já o encontrei muitas vezes no caminho. Mas as minha distrações e deslizes  me fizeram perde-lo de vista. Quando tornei a olhar eu já estava longe, já tinha caminhado mais uma vez sozinho na direção oposta desse amor. O responsável por tudo isso sou eu mesmo, não digo isso com peso e culpa, mas com ciência de que sou humano, frágil e fraco. Não é fácil ser humano. Não é fácil viver essa humanidade limitada. Pois trazemos dentro de nós a semente desse amor que quer nos conduzir a perfeição porém  a nossa limitada humanidade nos arrasta no sentido oposto ou não nos permite avançar.

Uma inacabável luta entre o perfeito e o imperfeito. Entre o eterno e o mortal. Quando entendi que esse sou eu, tudo se acalmou. Sentia o aroma da paz e da serenidade aqui dentro. Um sentimento único! Equilíbrio! O centro!

Aceitar-se como ser humano frágil e limitado é o primeiro passo que me leva a descobrir quem sou. Pois quando eu reconheço as minha fragilidades é porque eu comecei a encará-las. Tenho aprendido que o meu crescimento interior depende da minha capacidade de amar. Quanto mais amo mais cresço. Quem ama mais, vive mais. Quanto mais amo, mais sou feliz. Quanto mais luto pelo meu auto-conhecimento mais descubro quem eu sou e assim me aceito humano e capaz de amar. Quase um paradoxo!

É ai nesse exato ponto que entra “Dona felicidade…” Gosto muito de falar sobre ela. Quanto eu era criança imaginava que a felicidade era uma senhora rechonchuda que morava na ultima casa da rua. Ela estava sempre a cozinhar doces e bolos que feitos por suas mãos gorduchas enchiam os nossos olhos. Eles eram mais macios que o pão quentinho da minha padaria preferida.  Dona Felicidade sempre que fazia suas guloseimas fazia com que todas as crianças da rua sentissem o cheiro suave e açucarado das suas delicias que eram capazes de levar-nos a ficar quietos cerca de cinco minutos à sentir o cheiro dos seus deliciosos quitutes. Lá vinha ela, vestida de branco, com seu avental em tons de vermelho e amarelo que nos estimulava o apetite ainda mais. Seus cabelos presos como um rabo-de-cavalo e na ponta dobrava-o para dentro, sua face gorda e rosada, franzia seus olhos pequenos contra os óculos que passava a maior parte do tempo coberto de uma fina camada de farinha proveniente das sua rapidez e destreza ao preparar os doces. O segredo de Dona Felicidade nunca nos foi revelado. Mas os mais espertos sentavam-se a beira da calçada a espera que ela voltasse das compras para ver por entre as tranças de seu cesto de compras feito de palha rústica, o que Dona Felicidade traria para casa.

Hoje descobri qual é o segredo de Dona Felicidade! Ela vivia pra isso! Ela sabia o que a fazia feliz. A alegria de dona felicidade era ver que aquilo ela fazia era bom! Ela encontrou o que trazia alegria ao seu coração. Pronto! Esse era o segredo. Ela gostava, tinha prazer de mexer a massa, por o açúcar, o fermento, o leite! Seus olhos brilhavam ao ver a química dos ingredientes reagirem. Seu rosto feliz pelo espelho do forno, que calmamente fazia crescer o bolo encantava quem estava perto! Ela sabia o que estava fazendo e era feliz assim!

Agora vem a pergunta que tem ecoado aqui dentro de mim e talvez essa seja a mesma pergunta que grita ai dentro de você: O que te faz feliz? Onde está a sua felicidade? Já ouvi muitos falar que buscamos a nossa felicidade onde ela não está! Mas refletindo de forma bem humana, quem quer ser infeliz? Quem quer cometer erros? Quem quer ficar dando voltas na própria vida e nunca sair do mesmo lugar? Acho que ninguém! Confesso que esse tipo de resposta que ouço por ai irrita o domesticado que tenho aqui dentro! Acho que tenho tentado! Todos nós temos tentado! Tentamos acertar! O problema é que tentamos acertar sozinho! Acho que ai é que está nossa falha! Somo filhos amados de Deus e tenho certeza que como um Pai que ama, Ele nos quer feliz, quer nós estender a mão e ficar conosco!

Não vejo problema em errar, cometer falhas e fracassos. Adão errou, Abraão fracassou, qual o problema nisso? Oh Feliz culpa de Adão que permitiu que a salvação chegasse até nós!

Precisamos crescer no amor para sermos imagem e semelhança de Deus. E amar exige liberdade! Precisamos crescer com responsabilidade e para isso, precisamos da oportunidade de poder nos equivocar e aprender com os nossos erros. Mas para isso é preciso humildade. Ser simples!

A experiência do fracasso é um frutuosa purificação para nós! O caminho de santidade surge quando tomamos consciência das nossas próprias misérias! Sabe qual é a grande diferença entre  os apóstolos de Jesus e Judas? Bom, sejamos ainda mais específicos, sabe qual a diferença entre Pedro e Judas? Os dois traíram Jesus, não é que um ou outro tenha cometido um pecado maior, mas que Pedro recorreu a misericórdia e Judas não! Ele não se atreveu a voltar e apresentar-se diante de Deus. Ele não podia justificar o que ele fez, não encontrou desculpa suficiente que justificasse o seu pecado. Ele se arrepende e tenta reparar seu erro, mas o maior erro foi que ele não se abandona ao Amor misericordioso do Pai. A nossa vaidade não nos deixa voltar. Não somos humildes o suficiente pra isso! Então preferimos morrer a voltar de cabeça baixa. Sempre penso na figura de Deus como médico e juiz. Mas hoje tenho a certeza que ele se assemelha mais a figura do médico! Quando erramos, transgredimos a lei, e ficamos destrocados como pessoas, e isso nos afasta de Deus. Temos o remédio em nossas mãos mas resistimos insistentemente a tomá-lo. Somos aquele tipo de paciente que  demora se curar porque não segue o tratamento. Esquecemos que nossa rebeldia pode nos levar a morte!

A misericórdia é porta do céu! O que para nós é miséria, para Deus é uma grande oportunidade de demonstrar o quanto nos ama. Cada erro que cometemos é um pretexto que ele arruma para nos abraçar e nos arrastar para o céu pela força do seu amor misericordioso! O convite hoje é não dar ouvidos a culpa! A culpabilidade nos leva e rejeitar a misericórdia e assim sendo não mudarmos, não crescemos não avançamos em direção a nossa felicidade! Ficamos parado no mesmo lugar. Não complique aquilo que é simples! Tome o remédio! Aceite o abraço! Falo isso pra mim mesmo pois sei que a única coisa que pode me separar de Deus é viver no engano e não reconhecer minha própria impotência. Esse é o meu pecado! A única coisa que pode me aproximar de Deus é a sua Misericórdia. Nada mais!


MENSAGEM URBI ET ORBI DO SANTO PADRE BENTO XVI


PÁSCOA 2010

Queridos irmãos e irmãs!

Transmito-vos o anúncio da Páscoa com estas palavras da Liturgia, que repercutem o antiquíssimo hino de louvor dos hebreus depois da travessia do Mar Vermelho. Conta o Livro do Éxodo (cf. 15, 19-21) que, depois de atravessarem o mar enxuto e terem visto os egípcios submersos pelas águas, Miriam – a irmã de Moisés e Aarão – e as outras mulheres entoaram, dançando, este cântico de exultação: «Cantai ao Senhor que Se revestiu de glória. Precipitou no mar o cavalo e o cavaleiro!» Por todo o mundo, os cristãos repetem este cântico na Vigília Pascal, cujo significado é depois explicado na respectiva oração; uma oração que agora, na plena luz da Ressurreição, jubilosamente fazemos nossa: «Também em nossos dias, Senhor, vemos brilhar as vossas antigas maravilhas: se outrora manifestastes o vosso poder libertando um só povo da perseguição do Faraó, hoje assegurais a salvação de todas as nações fazendo-as renascer pela água do Baptismo: fazei que todos os povos da terra se tornem filhos de Abraão e membros do vosso povo eleito».

O Evangelho revelou-nos o cumprimento das figuras antigas: com a sua morte e ressurreição, Jesus Cristo libertou o homem da escravidão radical, a do pecado, e abriu-lhe a estrada para a verdadeira Terra Prometida, o Reino de Deus, Reino universal de justiça, de amor e de paz. Este «êxodo» verifica-se, antes de mais nada, no íntimo do próprio homem e consiste num novo nascimento no Espírito Santo, efeito do Baptismo que Cristo nos deu precisamente no mistério pascal. O homem velho cede o lugar ao homem novo; a vida anterior é deixada para trás, pode-se caminhar numa vida nova (cf. Rm 6, 4). Mas o «êxodo» espiritual é princípio duma libertação integral, capaz de renovar toda a dimensão humana, pessoal e social.

Sim, irmãos, a Páscoa é a verdadeira salvação da humanidade! Se Cristo – o Cordeiro de Deus – não tivesse derramado o seu Sangue por nós, não teríamos qualquer esperança, o destino nosso e do mundo inteiro seria inevitavelmente a morte. Mas a Páscoa inverteu a tendência: a Ressurreição de Cristo é uma nova criação, como um enxerto que pode regenerar toda a planta. É um acontecimento que modificou a orientação profunda da história, fazendo-a pender de uma vez por todas para o lado do bem, da vida, do perdão. Somos livres, estamos salvos! Eis o motivo por que exultamos do íntimo do coração: «Cantemos ao Senhor: é verdadeiramente glorioso!»

O povo cristão, saído das águas do Baptismo, é enviado por todo o mundo a testemunhar esta salvação, a levar a todos o fruto da Páscoa, que consiste numa vida nova, liberta do pecado e restituída à sua beleza original, à sua bondade e verdade. Continuamente, ao longo de dois mil anos, os cristãos – especialmente os santos – fecundaram a história com a experiência viva da Páscoa. A Igreja é o povo do êxodo, porque vive constantemente o mistério pascal e espalha a sua força renovadora em todo o tempo e lugar. Também em nossos dias a humanidade tem necessidade de um «êxodo», não de ajustamentos superficiais, mas de uma conversão espiritual e moral. Necessita da salvação do Evangelho, para sair de uma crise que é profunda e, como tal, requer mudanças profundas, a partir das consciências.

Peço ao Senhor Jesus que, no Médio Oriente e de modo particular na Terra santificada pela sua morte e ressurreição, os Povos realizem um verdadeiro e definitivo «êxodo» da guerra e da violência para a paz e a concórdia. Às comunidades cristãs que conhecem provações e sofrimentos, especialmente no Iraque, repita o Ressuscitado a frase cheia de consolação e encorajamento que dirigiu aos Apóstolos no Cenáculo: «A paz esteja convosco!» (Jo 20,21).

Para os países da América Latina e do Caribe que experimentam uma perigosa recrudescência de crimes ligados ao narcotráfico, a Páscoa de Cristo conceda a vitória da convivência pacífica e do respeito pelo bem comum. A dilecta população do Haiti, devastado pela enorme tragédia do terremoto, realize o seu «êxodo» do luto e do desânimo para uma nova esperança, com o apoio da solidariedade internacional. Os amados cidadãos chilenos, prostrados por outra grave catástrofe mas sustentados pela fé, enfrentem com tenacidade a obra de reconstrução.

Na força de Jesus ressuscitado, ponha-se fim em África aos conflitos que continuam a provocar destruição e sofrimentos e chegue-se àquela paz e reconciliação que são garantias de desenvolvimento. De modo particular confio ao Senhor o futuro da República Democrática do Congo, da Guiné e da Nigéria.

O Ressuscitado ampare os cristãos que, pela sua fé, sofrem a perseguição e até a morte, como no Paquistão. Aos países assolados pelo terrorismo e pelas discriminações sociais ou religiosas, conceda Ele a força de começar percursos de diálogo e serena convivência. Aos responsáveis de todas as Nações, a Páscoa de Cristo traga luz e força para que a actividade económica e financeira seja finalmente orientada segundo critérios de verdade, justiça e ajuda fraterna. A força salvífica da ressurreição de Cristo invada a humanidade inteira, para que esta supere as múltiplas e trágicas expressões de uma «cultura de morte» que tende a difundir-se, para edificar um futuro de amor e verdade no qual toda a vida humana seja respeitada e acolhida.

Queridos irmãos e irmãs! A Páscoa não efectua qualquer magia. Assim como, para além do Mar Vermelho, os hebreus encontraram o deserto, assim também a Igreja, depois da Ressurreição, encontra sempre a história com as suas alegrias e as suas esperanças, os seus sofrimentos e as suas angústias. E todavia esta história mudou, está marcada por uma aliança nova e eterna, está realmente aberta ao futuro. Por isso, salvos na esperança, prosseguimos a nossa peregrinação, levando no coração o cântico antigo e sempre novo: «Cantemos ao Senhor: é verdadeiramente glorioso!»


HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA

Basílica Vaticana
Sábado Santo, 3 de Abril de 2010

Amados irmãos e irmãs,

Uma antiga lenda judaica, tirada do livro apócrifo “A vida de Adão e Eva”, conta que Adão, durante a sua última enfermidade, teria mandado o filho Set juntamente com Eva à na região do Paraíso buscar o óleo da misericórdia, para ser ungido com este e assim ficar curado. Aos dois, depois de muito rezar e chorar à procura da árvore da vida, aparece o Arcanjo Miguel para dizer que não conseguiriam obter o óleo da árvore da misericórdia e que Adão deveria morrer. Em seguida, os leitores cristãos adicionaram a esta comunicação do arcanjo, uma palavra de consolação. O Arcanjo teria dito que, depois de 5.500 anos, viria o benévolo Rei Cristo, o Filho de Deus, e ungiria com o óleo da sua misericórdia todos aqueles que acreditassem nele. “O óleo da misericórdia para toda a eternidade será dado a quantos deverão renascer da água e do Espírito Santo. Então, o Filho de Deus rico de amor, Cristo, descerá às profundezas da terra e conduzirá o teu pai ao Paraíso, para junto da árvore da misericórdia”. Nesta lenda, faz-se palpável toda a aflição do homem diante do destino de enfermidade, dor e morte que nos foi imposto. Torna-se evidente a resistência que o homem oferece à morte: em algum lugar – repetidamente pensaram os homens – deveria existir a erva medicinal contra a morte. Mais cedo ou mais tarde, deveria ser possível encontrar o remédio não somente contra as diversas doenças, mas contra a verdadeira fatalidade – contra a morte. Deveria, em suma, existir o remédio da imortalidade. Também hoje, os homens andam à procura de tal substância curativa. A ciência médica atual, incapaz de excluir a morte, procura, contudo, eliminar o maior número possível das suas causas, adiando-a sempre mais; procura uma vida sempre melhor e mais longa. Mas, pensemos um pouco: caso se conseguisse quiçá não excluir totalmente a morte mas adiá-la indefinidamente, como seria chegar a uma idade de várias centenas de anos? Isto seria bom? A humanidade envelheceria numa medida extraordinária; não haveria lugar para a juventude. A capacidade de inovação se apagaria e uma vida interminável não seria um paraíso, mas uma condenação. A verdadeira erva medicinal contra a morte deveria ser diversa. Não deveria levar simplesmente a uma prolongação indefinida desta vida atual. Deveria transformar a nossa vida a partir do interior. Deveria criar em nós uma vida nova, verdadeiramente capaz de eternidade: deveria transformar-nos de tal modo que não terminasse com a morte, mas com ela iniciasse em plenitude. A novidade impressionante da mensagem cristã, do Evangelho de Jesus Cristo era, e ainda é, dizer-nos isto: sim, esta erva medicinal contra a morte, este autêntico remédio da imortalidade existe. Foi encontrado. É acessível. No Batismo, este medicamento nos é dado. Uma vida nova começa em nós, uma vida nova que amadurece na fé e não é cancelada pela morte da vida velha, mas só então se tornará plenamente visível.

Ouvindo isto alguns, quiçá muitos, responderão: a mensagem sim, eu escuto, mas falta-me a fé. E, mesmo quem quer acreditar perguntará: mas, é verdadeiramente assim? Como devemos imaginá-la? Como se realiza esta transformação da vida velha, de tal modo que nela se forme a vida nova que não conhece a morte? Mais uma vez, um antigo escrito judaico pode nos ajudar a ter uma idéia daquele processo misterioso que tem início em nós no Batismo. Neste escrito se conta que o patriarca Henoc foi arrebatado até ao trono de Deus. Mas, ele se atemorizou à vista das gloriosas potestades angélicas e, na sua fraqueza humana, não pôde contemplar a Face de Deus. “Então Deus disse a Miguel – assim continua o livro de Henoc – ‘Toma Henoc e tira-lhe as vestes terrenas. Unge-o com o óleo suave e reviste-o com vestes de glória! ‘ E, Miguel tirou as minhas vestes, ungiu-me com óleo suave; este óleo possuía algo mais que uma luz radiosa… O seu esplendor era semelhante aos raios do sol. Quando me vi, eis que eu era como um dos seres gloriosos” (Ph. Rech, Inbild des Kosmos, II 524).

Isto mesmo – ser revestidos com a nova veste de Deus – verivica-se Batismo; assim nos ensina a fé cristã. É verdade que esta mudança das vestes é um percurso que dura toda a vida. Aquilo que acontece no Batismo é o início de um processo que abarca toda a nossa vida –torna-nos capazes de eternidade, de tal modo que, na veste de luz de Jesus Cristo, podemos aparecer diante de Deus e viver com Ele para sempre.

No rito do Batismo, há dois elementos nos quais este evento se expressa e torna visível, também como exigência para o resto da nossa vida. Em primeiro lugar, temos o rito das renúncias e das promessas. Na Igreja Antiga, o batizando virava-se para ocidente, símbolo das trevas, do pôr do sol, da morte e, portanto, do domínio do pecado. O batizando virava-se para aquela direção e pronunciava um tríplice “não”: ao diabo, às suas pompas e ao pecado. Com a estranha palavra “pompas”, ou seja, o fausto do diabo, indicava-se o esplendor do antigo culto dos deuses e do antigo teatro, onde a diversão era ver pessoas vivas sendo dilaceradas pelas feras. Portanto, isto era o repúdio de um tipo de cultura que acorrentava o homem à adoração do poder, ao mundo da cobiça, à mentira, à crueldade. Era um ato de libertação da imposição de uma forma de vida que se apresentava como prazer e, contudo, levava à destruição daquilo que no homem são as suas qualidades melhores. Esta renúncia – com um comportamento menos dramático – constitui ainda hoje uma parte essencial do Batismo. Assim removemos as “vestes velhas”, com as quais não se pode estar diante de Deus. Melhor dito: começamos a depô-las. Com efeito, esta renúncia é uma promessa na qual damos a mão a Cristo, para que Ele nos guie e revista. Quais sejam as “vestes” que depomos e qual seja a promessa que pronunciamos fica claro quando lemos, no quinto capítulo da Carta aos Gálatas, aquilo que Paulo denomina “obras da carne” – termo que significa precisamente as vestes velhas que devem ser depostas. Paulo as designa assim: “fornicação, libertinagem, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas” (Gal 5, 19ss). São estas as vestes que depomos; são vestes da morte.

Em seguida, o batizando na Igreja Antiga se virava para oriente – símbolo da luz, símbolo do novo sol da história, novo sol que se levanta, símbolo de Cristo. O batizando determina a nova direção da sua vida: a fé em Deus trino, a quem ele se oferece. Assim, o próprio Deus nos veste com o traje de luz, com a veste da vida. Paulo chama a estas novas “vestes” “fruto do Espírito” e as descreve com as seguintes palavras: “caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência” (Gal 5, 22).

Na Igreja Antiga, depois o batizando era verdadeiramente despojado das suas vestes. Descia à fonte batismal e era imerso por três vezes – um símbolo da morte que significa toda a radicalidade deste despojamento e desta mudança de veste. Esta vida, que em todo o caso já está voltada à morte, o batizando a entrega à morte, junto com Cristo, e por Ele se deixa arrastar e elevar para a vida nova, que o transforma para a eternidade. Depois subindo das águas batismais, os neófitos eram revestidos com a veste branca, a veste luminosa de Deus, e recebiam a vela acesa como sinal da vida nova na luz que Deus mesmo acendera neles. Eles sabiam que tinham obtido o remédio da imortalidade, que agora, no momento de receber a sagrada Comunhão, tomava a sua forma plena. Na Comunhão, recebemos o Corpo do Senhor ressuscitado e nós mesmos somos atraídos para este Corpo, de tal modo que ficamos já guardados por Aquele que venceu a morte e nos conduz através da morte.

No decorrer dos séculos, os símbolos tornaram-se mais escassos, mas o acontecimento essencial do Batismo continue sendo o mesmo. Este não é apenas um lavacro, e menos ainda uma recepção um pouco complicada numa nova associação. O Batismo é morte e ressurreição, renascimento para a nova vida.

Sim, a erva medicinal contra a morte existe. Cristo é a árvore da vida, que se fez novamente acessível. Se aderimos a ele, então estamos na vida. Por isso, nesta noite da ressurreição, cantaremos com todo o coração o aleluia, o canto da alegria que não tem necessidade de palavras. Por isso Paulo pode dizer aos Filipenses: “alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!” (Fl 4, 4). Não se pode comandar a alegria. Somente pode ser dada. O Senhor ressuscitado nos dá a alegria: a verdadeira vida. Já estamos protegidos para sempre guardados no amor daquele a quem foi dado todo o poder no céu e na terra (cf. Mt 28,18). Assim, seguros de ser escutados, peçamos como diz a oração sobre as oferendas que a Igreja eleva nesta noite: Acolhei, ó Deus, com estas oferendas as preces do vosso povo, para que a nova vida, que brota do mistério pascal, seja por vossa graça penhor da eternidade. Amém.


PALAVRAS DO PAPA BENTO XVI


Monte Palatino
Sexta-feira Santa, 2 de Abril de 2010

Amados irmãos e irmãs,

Em oração, com o ânimo recolhido e comovido, percorremos nesta noite o caminho da Cruz. Subimos com Jesus ao Calvário e meditamos o seu sofrimento, tornando a descobrir como é profundo o amor que Ele teve e tem por nós. Mas, neste momento, não queremos limitar-nos a uma compaixão simplesmente ditada pelo nosso sentimento frágil; queremos antes de tudo sentir-nos participantes do sofrimento de Jesus, queremos acompanhar o nosso mestre compartilhando a sua Paixão na nossa vida, na vida da Igreja, pela vida do mundo; porque sabemos que é justamente na Cruz do Senhor, no amor sem limites que doa totalmente a si mesmo, que está a fonte da graça, da libertação, da paz, da salvação.

Os textos, as meditações e as orações da Via Sacra nos ajudaram a contemplar este mistério da Paixão a fim de aprender a imensa lição de amor que Deus nos deu na Cruz, para que nasça em nós um renovado desejo de converter o nosso coração, vivendo a cada dia no amor, a única força capaz de mudar o mundo.

Nesta noite, contemplamos Jesus com seu rosto cheio de dor, escarnecido, ultrajado, desfigurado pelo pecado do homem; amanhã de noite, o contemplaremos com sua face cheia de alegria, radiante e luminosa. Desde que Jesus desceu ao sepulcro, a tumba e a morte não são mais lugares sem esperança, onde a história se fecha no fracasso mais absoluto, onde o homem toca o limite extremo da sua impotência. A Sexta-feira Santa é o dia da esperança que é maior; aquela que amadureceu na Cruz enquanto Jesus exalava o último suspiro, gritando com grande voz: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). Entregando a sua existência “doada” nas mãos do Pai, Ele sabe que a sua morte torna-se fonte de vida, como a semente na terra que deve romper-se para que a planta possa nascer: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto” (Jo 12, 24). Jesus é o grão de trigo que cai na terra, despedaça-se, rompe-se, morre e por isso pode produzir fruto. Desde o dia em que Cristo foi alçado, a Cruz, que se apresenta como o sinal do abandono, da solidão, do fracasso, tornou-se um novo começo: da profundidade da morte, eleva-se a promessa da vida eterna. Na Cruz, já brilha o esplendor vitorioso da alvorada do dia de Páscoa.

No silêncio desta noite, no silêncio que envolve o Sábado Santo, tocados pelo amor de Deus sem limites, vivemos à espera da alvorada do terceiro dia, a alvorada da vitória do Amor de Deus, da alvorada da luz que permite aos olhos do coração ver de um modo novo a vida, as dificuldades, o sofrimento. Os nossos fracassos, as nossas desilusões, as nossas amarguras, que pareciam indicar a ruína de tudo, são iluminados pela esperança. O ato de amor da Cruz é confirmado pelo Pai e a luz fulgente da Ressurreição tudo envolve e transforma: da traição pode nascer a amizade; da negação, o perdão; do ódio, o amor.

Concedei-nos, Senhor, carregar com amor a nossa cruz, as nossas cruzes diárias, na certeza de que estas são iluminadas do fulgor da vossa Páscoa. Amém.